sábado, 23 de junho de 2012

MEU IRMÃO CÍCERO MATOS E A NOVA RUSSAS ANTIGA.‏


ATORES DA NOVA RUSSAS


Quando se cumprimenta uma adolescente de noventa anos em plena efervescência, indaga-se quais os cuidados que lhe foram dispensados, de onde viera o afeto e a quem cativou, os atores e autores construtores de uma biografia antecipada carregada de humanismo, solidariedade e amor sedutor.
Facilmente se entende esta história, através de João Cabral de Melo Neto: “um galo só não tece uma manhã” Eis aqui o nascimento da lei da convergência. Os novarrussenses puxaram para seu regaço às margens do Rio Curtume, peregrinos de outras cidades e de outros Estados. Sedentos, beberam da água higiênica de Dona Filina e quando satisfeitos, fincaram aqui as suas origens. Jamais esta adolescente harmoniosa cerrou-lhes o acesso, engessou-lhes a expressão. Em conseqüência todos devotaram a ela a visibilidade da sua gratidão. Uns, alegrando a cidade através do esporte, outros desenvolvendo o comércio local. Um dotado de mãos vocacionadas, artesanou uma boca num indivíduo impedido de se alimentar.
Enxergou também os necessitados, os desamparados e aqueles impedidos de consumir. Deu-lhes abrigo e apertou mãos calosas. Aos famintos, uma beirada de seus pratos. Numa oportunidade, perguntem dos ascendentes quem foi Jararaca, Lera, Luíza e Piçoca. Todos aqui chegados e incorporados à paisagem dos encontros. Suas angústias e o jugo severo da vida, foram reconhecidos e suavizados.

O tempo desrespeita a memória e tolda as idéias, por isso relembremos o Piçoca:

Na rua quando passava
Carregado de esperança,
Seu ego de santo inflava
Ao cingir uma criança.

A nossa Lera, um dia, na Rua Bartolomeu Araújo, hoje Boaventura Pedrosa, Lera topou numa pedra e, incontinenti, a removeu dali com as próprias mãos:

Uma pedra no caminho
O poeta consagrara,
Mas a Lera, com carinho,
Ela do chão arrancara.

Ninguém conhecia o retrovisor de Luíza. De onde viera, sua família e o seu porquê:

Já tomada pelo vício
Na sarjeta ela dormia
Jamais algum patrício
Perguntou por que gemia

Jararaca era um gatuno hábil, mas agradecido, que o digo Seu João de Matos e Dona Chaguinha:

Volúvel e peçonhento
Jararaca sem veneno
Dobrava-se como o vento
Com disfarce bem sereno

Aqui também recebeu-se o Padre Leitão, um presente de Dom José Tupinambá da frota, bispo de Sobral. Chegara ainda tenso, assustado. Vigário do Município vizinho, Independência, era solicitado todos os dias por uma senhora da sociedade.
O discurso? o mesmo: Senhor Vigário, estou apaixonada. O meu objeto de prazer eu o vejo diariamente. Não suporto mais trazê-lo escondido dentro da minha alma. Ela grita revolta. Antes que o padre perguntasse o nome do inquietador, ela desarvorada, pulou para os braços do presbítero que, desviando-se, veio parar em Nova Russas.
Oriundo da Escola de Dom José, aluno fiel e aplicado, arregaçou a batina e começou a agir. Gostava de ser chamado pela Alcunha de o Cura do Curtume. A expansão da cidade se materializou. Ela, semelhante a uma criança de colo, o grande administrador lhe apontava os rumos a seguir e a levava para aonde queria. Fora do centro, criara o patronato AUXILIUM e Nova Russas cresceu para lá. Novos espaços se firmaram, agora em direção contrária, no Sossego, pulando os muros da necrópole.

Assim é Nova Russas. Acolhedora, indiscriminável, mobilizadora, desenvolvida e mestra da convergência, onde todos são sujeitos e atores. Figurantes não existem.


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