ATORES DA
NOVA RUSSAS
Quando se
cumprimenta uma adolescente de noventa anos em plena efervescência, indaga-se
quais os cuidados que lhe foram dispensados, de onde viera o afeto e a quem
cativou, os atores e autores construtores de uma biografia antecipada carregada
de humanismo, solidariedade e amor sedutor.
Facilmente se
entende esta história, através de João Cabral de Melo Neto: “um galo só não
tece uma manhã” Eis aqui o nascimento da lei da convergência. Os novarrussenses
puxaram para seu regaço às margens do Rio Curtume, peregrinos de outras cidades
e de outros Estados. Sedentos, beberam da água higiênica de Dona Filina e quando
satisfeitos, fincaram aqui as suas origens. Jamais esta adolescente harmoniosa
cerrou-lhes o acesso, engessou-lhes a expressão. Em conseqüência todos
devotaram a ela a visibilidade da sua gratidão. Uns, alegrando a cidade através
do esporte, outros desenvolvendo o comércio local. Um dotado de mãos
vocacionadas, artesanou uma boca num indivíduo impedido de se alimentar.
Enxergou
também os necessitados, os desamparados e aqueles impedidos de consumir.
Deu-lhes abrigo e apertou mãos calosas. Aos famintos, uma beirada de seus
pratos. Numa oportunidade, perguntem dos ascendentes quem foi Jararaca, Lera,
Luíza e Piçoca. Todos aqui chegados e incorporados à paisagem dos encontros.
Suas angústias e o jugo severo da vida, foram reconhecidos e suavizados.
O tempo desrespeita a memória e
tolda as idéias, por isso relembremos o Piçoca:
Na rua quando
passava
Carregado de
esperança,
Seu ego de
santo inflava
Ao cingir uma
criança.
A nossa Lera,
um dia, na Rua Bartolomeu Araújo, hoje Boaventura Pedrosa, Lera topou numa
pedra e, incontinenti, a removeu dali com as próprias mãos:
Uma pedra no
caminho
O poeta
consagrara,
Mas a Lera,
com carinho,
Ela do chão
arrancara.
Ninguém conhecia o retrovisor de
Luíza. De onde viera, sua família e o seu porquê:
Já tomada pelo
vício
Na sarjeta ela
dormia
Jamais algum
patrício
Perguntou por
que gemia
Jararaca era um gatuno hábil, mas
agradecido, que o digo Seu João de Matos e Dona Chaguinha:
Volúvel e
peçonhento
Jararaca sem
veneno
Dobrava-se
como o vento
Com disfarce
bem sereno
Aqui também recebeu-se
o Padre Leitão, um presente de Dom José Tupinambá da frota, bispo de Sobral.
Chegara ainda tenso, assustado. Vigário do Município vizinho, Independência,
era solicitado todos os dias por uma senhora da sociedade.
O discurso? o
mesmo: Senhor Vigário, estou apaixonada. O meu objeto de prazer eu o vejo
diariamente. Não suporto mais trazê-lo escondido dentro da minha alma. Ela
grita revolta. Antes que o padre perguntasse o nome do inquietador, ela desarvorada,
pulou para os braços do presbítero que, desviando-se, veio parar em Nova
Russas.
Oriundo da
Escola de Dom José, aluno fiel e aplicado, arregaçou a batina e começou a agir.
Gostava de ser chamado pela Alcunha de o Cura do Curtume. A expansão da cidade
se materializou. Ela, semelhante a uma criança de colo, o grande administrador lhe
apontava os rumos a seguir e a levava para aonde queria. Fora do centro, criara
o patronato AUXILIUM e Nova Russas cresceu para lá. Novos espaços se firmaram,
agora em direção contrária, no Sossego, pulando os muros da necrópole.
Assim é Nova
Russas. Acolhedora, indiscriminável, mobilizadora, desenvolvida e mestra da
convergência, onde todos são sujeitos e atores. Figurantes não existem.
Nenhum comentário:
Postar um comentário